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Video convite "O Pensador Selvagem"

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Entrei de gaiato num navio

"O Pensador Selvagem"
Conheci um violonista em Copacabana
, o Rogério Bicudo, e nos entendemos muito bem no plano musical. Eu tinha um grupo de choro e samba chamado "Sambou Dançou", com uns amigos e o Rogério propôs uma viajem à Ibiza, lugar que segundo ele, era ideal para tocar no verão e ganhar uma grana.

Depois de um ano de planejamento, eu, o Eduardo Gomes, o Ivan e o Delcio Carvalho (o compositor de "Sonho Meu", interpretado pela Dona Ivone Lara), decidimos partir para a Espanha.

Todos compraram a sua passagem de avião, menos eu. Minha mãe tinha uma amiga cujo filho trabalhava no já extinto Lloyd Brasileiro, o qual me incluiu numa lista de espera para embarcar em um dos cargueiros desta companhia que zarpasse para a Europa na data que havíamos planejado.

Como no navio não há limite de peso para a equipagem, combinamos que eu levaria os objetos mais pesados do grupo. De modo que minha equipagem se compunha de um amplificador Giannini dos grandes, um atabaque, um pacote de posters que a Riotur nos deu para divulgar o Rio e os nossos concertos, meu bandolim e duas malas grandes cheias, com tudo o que eu achava necessário para sobreviver muito tempo longe de casa.

A viagem no "Itapagé" foi maravilhosa. Durou 12 dias, durante os quais eu tive a oportunidade de cruzar o Atlântico emulando, em sentido oposto, a viagem dos meus bisavós italianos que vieram para o Brasil no final do século XIX. O mar tinha uma cor azul cinzenta muito mais escura que no Rio de Janeiro. Peixes voadores, delfins e o bom tempo me acompanharam nesta inesquecível travessia. Tinha um camarote grande e cômodo, sem luxo, mas com mesa para escrever, armário e banheiro individual. A comida, compartida com os oficiais, era boa e farta.

Meu destino era Hamburgo, onde eu deveria pegar um trem para Barcelona e de lá a Ibiza, um Ferry. Durante o trajeto, fiz amizade com todos os tripulantes, incluindo o mais importante, o cozinheiro. Num navio de carga, se você não fizer amizade com o cozinheiro, sua viagem pode ser um pesadelo.

Nos reuníamos de noite, marinheiros e eu, no camarote do cozinheiro para tocar samba, choro, cantar e beber. Ele tinha um armário enorme cheio de bebidas importadas de todo o mundo. Ainda fizemos uma escala nas Ilhas Canárias, onde depois de passear o dia inteiro, tocamos um pagode na proa do navio atraindo atenção de todos os que passavam pelo porto de Las Palmas de Gran Canaria.

Chegando em Hamburgo, os tripulantes do meu navio, me convidaram para conhecer um bar brasileiro em St. Pauli, o "Tropical Brasil nº1. Eu deveria pegar o primeiro trem para Barcelona, mas não podia deixar passar a oportunidade de conhecer um pouco daquela cidade tão interessante e a primeira que eu pisava no "velho mundo". No bar, conheci a tripulação de outro cargueiro brasileiro que me convidou a ficar até o dia seguinte para a inauguração do Tropical Brasil nº 2. Me ofereceram pernoitar no seu navio, pois tinham um grupo musical com baixo, bateria e tudo. Foi o maior barato, tocamos todos no Tropical Brasil, numa noite memorável. Então, já haviam passado duas noites, com os gastos que isso supõe. E eu, ingênuo, achava tudo barato. No Brasil, um maço de cigarros custava mais de 2.000 cruzeiros e na Alemanha com duas moedinhas eu comprava o meu cigarro. Parecia muito barato, só que aquelas duas moedinhas valiam o dobro do montão de notas que custava o cigarro no Brasil. Resultado, em três dias gastei quase 400 dólares em cigarro, cerveja, hamburguers (lógico em Hamburgo) e no "Sex Kino" (cinema de sacanagem), toda uma novidade para um brasileiro daquela época com vinte e quatro anos. Eu ia para a Espanha trabalhar e só tinha 700 dólares no bolso. Assustado fui comprar a passagem para Barcelona na estação. Como já estava quase três noites praticamente sem dormir, pensei comprar uma passagem em algum trem com cama. Na minha ingenuidade, imaginei que uma passagem de primeira classe incluiria uma cômoda cama, igual as dos filmes. E aqui começaram os meus problemas. Continúa

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